terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Poder da Palavra




O PODER DA PALAVRA...
Fechamos este ano de uma forma muito linda em nossos trabalhos executados na 4 Tempos. 

Ao longo de todos estes anos a nossa maior força dentro deste trabalho foi, é e sempre será a palavra.

Toda nossa força de comunicação está fortalecida nas palavras que colocamos em nossos treinamentos.

Ela é sem dúvida nenhuma a nossa maior ferramenta de trabalho.

Através dela expressamos nossos sentimento e excutamos o oficio que tanto amamos.

Quando chegamos ao final do ano, percebemos que é através dela também que expressamos nossos votos para o ano vindouro.

Este texto foi preparado para falarmos sobre a palavra, e foi sem duvida um dos momentos mais lindos em todos os encerramentos que fizemos até hoje.

Quero aqui expressar minha mais sincera gratidão a todos que nos apoiam e principalmente à comissão montada para o encerramento do nosso ano de trabalho que nos proporcionaram tão belo espetáculo.

Um agradecimento especial a todos, Renato, Andreia, Flávio, Liliam, Rogério, Edméia, Andressa, Aneccy, Gabi, Ana Paula, André, Tati, Carla, Sidney, Renata, Dani, Pinduca, Karen e nossa querida Regina.

Obrigado de coração... com vocês reafirmamos naquele domingo, que aquele que se emociona muda o mundo.

Que através do comprometimento e da dedicação tudo é possível.

A pedidos de muitas pessoas ai vai o texto que trouxemos para o salão naquela noite.

PALAVRA...
No latim... PARABOLA em grego PARABOLÉ....  de PARA... BALLEIN
Por origem e em essência...   Para --- colocar ao lado -  Ballein – lançar ...

Pela noção de que uma coisa pode ser comparada a outra se for colocada ao lado desta.

Lado a lado pode haver a comparação....
Mas comparar o que com que.... 

Se no inicio não há polaridade.. se no inicio tudo é uno.

Não se pode comparar o absoluto...

Já que o absoluto é aquilo que é em si por si apenas....
Se não há comparação não há verdade posto que a mentira não existe....
E assim não há um outro lado... o que há é apenas... Apenas um....

Não é necessária a palavra... Visto que por essência ela é em si a comparação....

Então como comparar?

Comparar o que? Com que há de se comparar.....
E se fosse assim com diferenciar a luz e a escuridão..... como alguém um dia disse....
“Não haveria luz se não fosse a escuridão...

O que é um mistério...?
Aquilo que não se fala... ?
Do que não se fala ou não se sabe nada...?
O que ainda é irreconhecível....?
Nem sempre quando existe algo este algo já existe....
So podemos saber que algo esta lá quando o reconhecemos, mas se ainda é irreconhecível, pode-se afirmar que não exista?
Se algo não existe... Então o que existe é a falta e não que este algo não exista...
Mesmo porque, seja oculto, ou misterioso, não quer dizer que um dia não venha a ser reconhecido.
Desta maneira o que não se reconhece não se compara...
Sobre o que não se reconhece não se fala... Nem se escreve...!
Para o que não é dito não há comparação...
Desta forma a palavra sobre isto ainda não existe...
E como mistério....  o oculto permanece oculto...
Até que sobre ele se faça luz...

E em algumas coisas o mistério sempre permanecerá...

De onde viemos...? Para onde vamos...? Como vamos....?

Pesquise tudo que puder...
Aprofunde-se o quanto quiser....
Mergulhe como quiser...

E em muitos mistérios a resposta será sempre um novo questionamento...

Como a formiga que passa seus dias coletando minúsculos fragmentos de alimento, nós caminhamos coletando pequeníssimos pedaços de uma consciência maior.

Não sabemos ainda, por quê? Ou para que? 

Sabemos apenas do que sabemos e o que já sabemos nos joga cada vez mais para dentro de nós mesmos e desta consciência... 

Às vezes palpável... Quase material...

Às vezes sutilíssima...  Imperceptível;  mas como que um milagre, viva e presente... Como algo que já soubéssemos e que de alguma forma um dia viria a tona....

E como nos ligamos a esta consciência que esclarece...
Ilumina e que cria condições para que dentro de cada um venha uma frase.... 

EU JÁ SABIA...

Recorremos assim às imagens e movimentos que atravessaram gerações, que são vivas e materiais... Dentro de cada um de nós....

Portanto pense agora nesta consciência....
Pense na criação... 

Lá no fundo temos uma imagem... Um pensamento e um sentimento...

EXISTE UM CRIADOR?....

Certamente a resposta será um questionamento e assim, passamos a contar uma história para você...

Esta história já foi contada por muitos, de diversas formas...
Hoje queremos aproveitá-la para trazer a você a força da palavra...
Deixemos que as palavras nos conduzam agora...
Através delas podemos viajar...
Sinta a força das palavras... e como quando colocadas lado a lado... nos permitem:
Crescer, Evoluir, Imaginar, Sentir... e até mesmo visualizar.....
Coloque-se ao lado do criador... Imagine-se ao lado dele...
Uma consciência pura. Única.
Ali não há nada... A não ser esta consciência...

O todo ou o vazio?
Claro ou escuro?
Preto ou branco?
Como definir um sem o outro?
Não se define o que não se compara.
E esta consciência sabe... Compreende.
Não se define o que não se compara.

O silencio ou o som?
Muito ou pouco?
Apertado... ou largo....?
Próximo ou distante?

Como pode existir o todo se não existe a parte?
Como existir o indivisível... Se ainda não existe a divisão?
Como subtrair algo se não se soma nada?

Imagine que esta consciência se materializa agora.
Como ela se materializaria? Só podemos pensar nela pensando em nós mesmos.
Somente podemos imagina-la se pensarmos na semelhança... Somos a imagem do criador, e é através desta semelhança que o imaginamos.
Somente podemos imaginar o criador a partir do espelhamento...
E as reminiscências de nossa memória nos jogam para um homem... como nós.

"Em qualquer lugar que estejam os vestígios do Mestre, os  ouvidos daquele que estiverem  preparados para receber os ensinamentos se abrirão completamente". 

"Quando os ouvidos do discípulo estão preparados para ouvir, então surgem os lábios para enchê-los com Sabedoria."

Então:
Para um mestre um discípulo...
Para uma boca um ouvido...
Para uma imagem... olhos....
Para um toque um corpo....

Para isto o homem...
Esta consciência precisa do homem...

"O que está em cima reflete o que está embaixo, e o que está embaixo reflete o que está em cima."
Mas Como se não há em cima ou embaixo?

Então:
Para atores... Um palco...
Para os ambientes o cenário...
Para os dramas o contexto
Para os personagens... O perfil...

Para isto a terra... Precisamos da terra...

"Nada está parado; tudo se move; tudo vibra."
Então:
Para isto VIDA....

"Tudo é Duplo; tudo tem dois polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados."

Então:
Para isto a experiência...
Para o principio o meio e o fim...
Para o infinito o finito...
Para a vida a morte...
Para a continuidade...  A família....

PARA TUDO ISTO UMA IMAGEM ANTIGA... 
VÍVIDA NA SUA MAIS REMOTA MEMÓRIA....

O CRIADOR...

PARA ESTA IMAGEM SUA REFERENCIA...
VOCÊ...

CRIADOR E CRIATURA...
UMA MESMA IMAGEM....

E ASSIM.....
O CRIADOR SE APRESENTA
¨Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação."

E o Criador agora explora sua própria consciência em direção à sua criação...
As leis mais antigas se apresentam....
Para ser parte... É preciso pertencer... Num movimento continuo de expansão e contração...
Assim como pulsa a vida... o universo... a respiração... Como bate o coração.....
Expansão e contração.

Pertencimento e exclusão...
Liberdade e limite...
Começo meio e fim...
COMO SUA CRIAÇÃO PODE ESTAR EM CONTATO COM ELE?
ESPIRITUAL É O MOVIMENTO.....
INFINITO?
NÃO... ASSIM O TEMPO SE FAZ NECESSARIO....

Espiritualidade e tempo.....
Algo para se viver em um período...
Um regulara a criação... Seus sentidos e sentimentos... O fiel da balança...
Nela... na espiritualidade, ele deposita os mistérios mais profundos...
O que se revelará...
O outro... o Tempo... regulará as marés... O fluxo e o refluxo....
A ele cabe a medida do movimento....
Determinara o inicio... o meio e o fim da experiência...  

A eles cabe a primazia de trazerem o palco.....
Espiritualidade e Tempo espalham as estrelas... pontilhando o céu com pequenos fragmentos da criação.

Sua entrada é branda... Calma.... Carregam a responsabilidade....
De um lado o contato... Do outro a dimensão do movimento...

AOS POUCOS DESDOBRA-SE 0 VEU... PREPARA-SE O PALCO....

Espiritualidade e Tempo assim caminham juntos e preparam o palco....

O palco onde o drama se desenvolverá....

"Toda a Causa tem seu Efeito, todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei."

A lei é o criador... 

O que está em cima reflete o que está embaixo e o que está embaixo reflete o que está em cima....
Agora isto existe...
Embaixo e em cima...
Criador e criatura...
O que é revelado e oculto...
Já se pode comparar...
A palavra já pode se revelar...
O palco... já se faz presente...
O cenário está pronto...

Os dramas já são possíveis...
PARA A ETERNIDADE A FINITUDE...
O TEMPO PROCLAMA...
PARA O COMEÇO O MEIO E O FIM...
PARA CLARO O ESCURO...
PARA A NOITE O DIA...
PARA O CÉU O FIRMAMENTO
PARA O SOL A CHUVA...
PARA O MAR A TERRA...

A ESPIRITUALIDE CONCLAMA...
PARA O OCULTO A REVELAÇÃO
PARA O QUE É; A SOMA....
PARA O CONHECIMENTO... A SABEDORIA...
PARA A SABEDORIA A APLICAÇÃO...

PARA O MESTRE O DISCIPULO...
PARA O OUVIDO A FALA...
PARA A IMAGEM OS OLHOS...
PARA O SENTIR O TOQUE...

PARA AS POLARIDADES...
O POSITIVO E O NEGATIVO...

PARA A VIDA A CRIAÇÃO...

PARA A SEMENTE UM CAMPO FERTIL

PARA A VIDA O HOMEM... E A MULHER...

O CRIADOR PROCLAMA A LEI:
SOMENTE ATRAVES DE UM HOMEM E DE UMA MULHER EXISTE A VIDA
DE UM LADO O HOMEM DO OUTRO A MULHER....

O TEMPO DECRETA...
Cresceras e frutificaras...

A ESPIRITUALIDADE CONFIRMA...
Carregam a semente...
Não há nada nem ninguém que afaste a lei...
Somente através da semente e do campo haverá vida...
Para o ritmo... E o encontro O TEMPO...
Para o sagrado... A ESPIRITUALIDADE...
Para a vida... Os passos da criação...
Conhecerão os ambientes...
Viverão os dias... Horas, minutos e cada segundo...
Sentirão a brisa e a tempestade...
O frio e o calor...
Descobrirão o claro e o escuro...
Viverão o dia e a noite...
Plantarás.. e no tempo certo colherás...
Assim comerás e beberás do fruto do teu trabalho...
O palco está pronto...
O ambiente também...
O drama se iniciará...
Através dele o oculto se descortinará...

Os segredos serão revelados...
"O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos."
Homem e mulher estão prontos....
A dualidade se confirma...
Para a mulher o homem...
Para a semente a terra fértil...
No momento certo o encontro se dará...
O Criador, o tempo e espiritualidade se aproximam da mulher e do homem e envolvem o homem e a mulher.

PARA A VIDA!!!!
O HOMEM... E A MULHER...

O humano e o sagrado se unem...
O criador dá ao homem e à  mulher o poder da criação.....

A partir do homem e da mulher.... A vida evolui....
E a mulher de mãos dadas com o homem mostra a todos a sua barriga....
O Criador reforça a Lei...
A mulher é o campo fértil... o homem carrega a semente...
Somente através da mulher alguém virá...

Os dramas agora podem se desenrolar... o oculto se revelará...
Homens e mulheres tem um lugar...
A humanidade pode evoluir...
Aceitação se coloca ao lado da aprovação...
A vida e a morte são possíveis... 
O Começo o meio e o fim...
Humano e sagrado caminham juntos...
Juntos... Terra e semente podem dar seus frutos...

Agora é possível saber que se pertence...

A ordem existe... E o homem experimenta o compartilhar...

A PALAVRA EXISTE...

Agora é possível colocar as coisas lado a lado...
Já se pode comparar...

A diferença existe...
E com ela a PALAVRA...

O CRIADOR RECONHECE EM SI A CRIATURA...

E agora ele oferece ao homem... o poder da criação.....

Junto:
CRIADOR E CRIATURA....

Mestre e discípulo...
Palavra e ouvido...
Imagem e visão...
Corpo e toque...

E a certeza de que muitos virão...
A partir dai o todo pode florescer na parte...

O criador contempla sua criação...
O mundo se apresenta como é...
O grande palco dos dramas humanos...

O Criador oferece ao homem suas memórias mais antigas... as imagens primordiais...
Através destas imagens o home pode se manter conectado a ele....

Enquanto ele contempla sua criação... homem e mulher caminham pelo mundo...
A memória do Criador é viva... eles podem acessa-la...
Deverão apenas descobrir como...

"Sob as aparências do Universo, do Tempo e do Espaço e da Mobilidade, está sempre encoberta a Realidade Substancial: a Verdade fundamental."

Assim o palco está ai.... os dramas podem acontecer.... os atores existem....
As imagens que nos ligam ao todo...
O mundo e suas imagens mais remotas...
O todo nos liga e nós nos ligamos a ele...

A universo existe... a terra existe... homem e mulher existem...
Pois ai estão os dois planos...
O do criador....
E o do homem....

As imagens mais antigas...
A sabedoria hermética...
O obscuro que se revelará...
As imagens que nos ligam ao todo...
Do fundo da nossa memória...
Da memória da alma...
Brotam imagens e figuras...
Que indicam o caminho.....


"A Mente Infinita d’O TODO é a matriz dos Universos."

Nela estão contidos todos os dramas... todas as cenas...
Aquilo que tudo sabe... sabe que assim deve ser...
As imagens trazem as palavras.....
A palavra... Compara... Organiza... Libera... Liberta
Liga o que está embaixo com aquilo que está em cima...
Liga os polos e faz fluir...
As imagens nos ligam...
E para cada imagem...
Pensamentos... Sentimentos... Palavras....

"Nada está parado, tudo se move, tudo vibra."

Estas são imagens antigas que recebemos...
 o universo como um grande vitral...
Luz... Força e movimento
Cada palavra descoberta...
Cada palavra revelada...

Revela-se assim o poder da palavra... 

Estas imagens antigas são as memórias daquele que cria... e que nos conecta ao todo...

A imagem do pai, mãe... os santos, a morte... a magia...

QUE NESTE ANO SUA PALAVRA SEJA FORTE...
E QUE O MELHOR SEMPRE ACONTEÇA....

José Carlos O. Froes

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

As máscaras



As máscaras
Já a algum tempo que não posto nada... Muitas mudanças internas e externas vem de alguma forma consumindo meu tempo, mas nunca me esqueci de quanto é bom expressar meus sentimentos e acima de tudo oferecer algo para aqueles que tem estado comigo nesta caminhada.

Hoje decidi falar sobre aqueles medos que nos consomem e quase sempre estão envoltos num véu de obscuridade.

Como é bom quando estes véus podem cair e assim nos darmos conta de quem somos, da nossa essência e daquilo que buscamos.

Quando entramos nesta vida assinamos um contrato em branco onde as clausulas serão escritas pelo tempo que segundo nossa própria historia determinará a forma como elas se estabelecerão.

Algumas destas clausulas apresentam um rigidez enorme que somente o próprio tempo será capaz de abrandar, outras estão soltas, como pontas de um novelo que aparentemente se encontra quebrado.

E é o tempo... o mesmo tempo que determina o que é rígido e o que é solto que nos oferece as condições para a devida amarração, onde tudo então ficará bem.

Hoje quero trazer um poema... belo e profundo escrito em 1928 por Alvaro Campos que nos oferece grandes possibilidades de reflexão sobre o tempo, nossos medos e as mascaras que insistimos em vestir e que um dia virão por terra.
Aproveite.... e desfrute...

TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

 José Carlos Froes